Escrito por: Gracyella Pires da Silva Borges
Gostaria de contar a vocês uma pequena história, antes de relatar as inúmeras possibilidades de atuação do T.O. nas APAEs…
Desde o primeiro período de faculdade, a minha dúvida sempre era: qual área da T.O. eu deveria escolher para atuar? Essa dúvida, permaneceu em todo o percurso da faculdade, por vezes, eu saia de um estágio de reabilitação, entendendo que isso fazia efeito em mim e, outras, também aconteciam nos estágios de promoção e prevenção, tudo fazia muito sentido e a cada momento, a dúvida só aumentava. Tive que lidar com a decisão certa de muitos amigos da minha sala que já nomeavam as áreas de seus interesses na T.O. Eu era a que se interessava por todas e nunca conseguia me denominar de uma área apenas. As pessoas sim, adoravam me dizer que eu tinha “cara de social”, mas muitas achavam saúde mental, outras hospitalar e na reabilitação e educação, me deram feedbacks positivos.
Finalizei a faculdade sem saber que todas as identificações que eu tive, me prepararam para ter o primeiro emprego em uma APAE! Sabe por que? Nas APAEs, o T.O. tem papel importantíssimo em todas as áreas abrangentes: educação, saúde, assistência social, que vão de encontro com a missão geral das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais: “Promover a habilitação e reabilitação da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla e de sua família, de forma continuada, por meio de serviços, programas e projetos nas áreas de assistência social, educação, saúde e trabalho com vistas à redução de impedimentos e barreiras que dificultem a inclusão social, o acesso aos direitos e a participação plena e efetiva dessas pessoas na sociedade”.
Entrelinhas, até parece casar com as descrições da Terapia Ocupacional: “a profissão é um campo de conhecimento e de intervenção nas áreas da saúde, educação e social. Faz uso de tecnologias orientadas para a emancipação e autonomia de pessoas que, por razões ligadas a problemáticas específicas: físicas, sensoriais, mentais, psicológicas e/ou sociais, apresentam temporariamente ou definitivamente dificuldade da inserção e participação na vida social”.
Tem muito haver uma descrição com a outra, né? Parece até que uma diz o que precisa e a outra responde o que tem para solucionar. É um encontro válido e enriquecedor. Descobri isso ao trabalhar na primeira APAE e hoje contabilizo minha terceira instituição e é algo que eu gostaria de sempre estar contribuindo e lutando pelo espaço e importância dos Terapeutas Ocupacionais nas APAEs.
E se tem uma certeza que tenho hoje é de que as APAEs precisam de nós, Terapeutas Ocupacionais e, nós, precisamos cada vez mais nos inserir nesse espaço rico de aprendizado e no qual, necessita do nosso trabalho. Pode ser a nossa porta de entrada para aprimorar conteúdos aprendidos na faculdade, sensibilizar o nosso olhar, estimular nossa criatividade e resolução de problemas imediatos, contribuir para a busca de mais conhecimentos constantemente, pode também, ser a nossa escolha de caminho profissional, pois, o movimento cresce e se modifica, mas a cada mudança demanda ainda mais o trabalho terapêutico ocupacional. E falando dele, gostaria de apresentar abaixo algumas possibilidades de atuação do T.O. nas APAEs que abrangem as áreas de saúde, educação e assistência social.
APAE – EDUCAÇÃO: PAPEL DO TERAPEUTA OCUPACIONAL
A dinâmica desta da área da educação nas APAEs, exige que o Terapeuta Ocupacional trabalhe para desenvolver, treinar e capacitar os alunos com deficiência intelectual e múltipla, quando necessário, para o uso de tecnologias assistivas que são produtos e instrumentos, equipamentos ou tecnologias adaptadas ou especialmente projetadas para melhorar a funcionalidade da pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida. Podem ser desenvolvidas adaptações de mobiliário, prescrição e adaptação de cadeiras de rodas, de cadeiras de sala de aula adequadas, de material escolar específico como: engrossadores de lápis, tesoura adaptadas, quadro imantado, adaptação de materiais como quebra-cabeça e outros. É fundamental incentivar e orientar as interações entre o aluno e os materiais e entre o aluno e o professor, entre o aluno e os demais alunos da sala e da escola APAE, buscando sempre melhorar a acessibilidade arquitetônica, adaptação de materiais didáticos, entre outros.
O terapeuta ocupacional não desempenha seu trabalho na escola APAE somente com pessoas com deficiência ou dificuldades de aprendizagem, seu objetivo também pode ser: grupos para profissionais da escola APAE, colaborar com a organização das atividades pedagógicas por meio de adaptações adequadas (currículo funcional), treinamentos sobre comunicação alternativa, acessibilidade e com sugestões da organização de espaços no contexto escolar da APAE.
APAE- SAÚDE: PAPEL DO TERAPEUTA OCUPACIONAL
As APAEs podem oferecer serviços na área da saúde em parceria com SUS nos níveis de SERDI (Serviço Especializado de Reabilitação em Deficiência Intelectual- tem como finalidade exclusiva o atendimento em saúde das pessoas com deficiência intelectual e do transtorno do espectro do autismo), CER ( Centro Especializado de Reabilitação), nos níveis II, III e IV (números que correspondem à quantidade de modalidades de reabilitação oferecidas (física, intelectual e autismo, visual, auditiva), e mesmo que não haja credenciamento e financiamento com o SUS, as APAEs podem oferecer serviços em setores de estimulação precoce e atendimentos clínicos individualizados, a depender da proposta de trabalho e da gerência da instituição.
Em todos os serviços ofertados pelas APAEs na área da Saúde, o Terapeuta Ocupacional tem um papel importante na produção e desenvolvimento de planos terapêuticos. O T.O. participa da triagem/acolhimento e avaliação multidisciplinar, planeja e executa intervenções, orienta e acolhe família e cuidadores, promove palestras e eventos para a comunidade e funcionários da instituição com propostas voltas para a promoção e prevenção de saúde, acompanha alunos e usuários em atendimentos clínicos no setor (algumas APAEs também oferecem serviços externos, por exemplo: a pessoa com deficiência está inclusa em escola regular e realiza atendimentos nos setores de saúde da APAE).
APAE: ASSISTÊNCIA SOCIAL: PAPEL DO TERAPEUTA OCUPACIONAL
Finalmente, chegamos no “BUM” das APAEs atualmente! A onda agora são os serviços oferecidos na área de assistência social, e pensem só… Nós, Terapeutas Ocupacionais, temos um papel fundamental nessa proposta. Basicamente, o serviço na área de Assistência Social está dividido em CENTRO DIA e Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, ambos programas estão referenciados nas normativas do SUAS (Sistema Único de Assistência Social).
O Centro Dia, é uma unidade pública tipificada no SUAS que oferta o Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência e suas Famílias. O público atendido, inclui pessoas com deficiência intelectual que necessitam de apoios extensivos e generalizados (no desenvolvimento da funcionalidade das atividades de vida diária e vida prática), participação das PCDI que possuem 18 anos ou mais (jovens e adultos); Inclusão prioritária das PCDI que encerraram o percurso escolar. Para o serviço funcionar as atividades precisam ser pensadas a partir dos objetivos do Serviço, sobretudo: autonomia e independência, diminuição/superação do isolamento social, diminuição do stress do cuidador e interação e participação social das PCDI (atividades que envolvam a melhoria da funcionalidade, comportamento e comunicação, de modo a promover a participação do usuário na comunidade) = a cara de T.O., né? No centro dia a T.O. realiza orientações técnicas, análise e monitoramento das atividades oferecidas nas oficinas, participação da elaboração do PDU (Plano de Desenvolvimento do Usuário).
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, trata-se de um Serviço da Proteção Social Básica do Sistema Único de Assistência Social, regulamentado pela Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (Resolução CNAS nº 109/2009).
O SCFV é ofertado no CRAS, ou feito em parcerias com entidades socioassistenciais (aqui entram as APAEs), que sejam referenciadas ao CRAS. Possui caráter preventivo, pautado na defesa dos direitos e desenvolvimento das capacidades e potencialidades de cada indivíduo, prevenindo situações de vulnerabilidade social. As atividades desenvolvidas incluem: atendimento individual e grupal; acolhida e escuta ativa e qualificada do usuário e sua família; visita domiciliar à família do usuário; construção conjunta do Plano de Atendimento Individual ou Familiar; atividades em oficinas diversificadas como, música, leitura, vídeo, grupos focais, teatro, atividades recreativas com água, esporte e lazer, dentre outras, nos espaços físicos da unidade, no domicílio, no bairro, na comunidade, em clubes, cinemas, praças, entre outros espaços; reuniões com grupos de famílias dos usuários; orientação e apoio aos cuidadores familiares; referenciamento do serviço ao CRAS local; discussão de casos com outros profissionais da unidade e da rede.
No Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos o T.O. pode contribuir como Técnico de Referência: profissional de nível superior para ser referência do serviço e atuar, juntamente com o orientador social, no planejamento de atividades que envolvam as famílias dos usuários; de reuniões periódicas com o responsável pela execução dos serviços, e, quando necessário, fazer o acompanhamento das famílias dos usuários.
As áreas de atuações do Terapeuta Ocupacional na rede APAE são diversas e podem variar de acordo com o plano de execução de serviços de cada APAE, determinados por diretorias e presidência da instituição. Há APAEs que focam seus trabalhos na saúde, outras na educação e outras na assistência social, e há aquelas que oferecem os trabalhos nas três áreas de maneira ampla. Mas, atualmente, o auge de atuação das APAEs está na área de Assistência Social, nesta área, enquanto Terapeutas Ocupacionais podemos contribuir muito com orientações e podemos propor também grupos com atividades voltadas para a participação social, autonomia e independência dos usuários.
Nas APAEs que atuo, já desenvolvi alguns projetos que incluem a música, teatro e dança como forma de conquistar esse objetivo geral de promover a participação social dos usuários. E, enquanto Terapeuta Ocupacional, percebo que temos em nosso favor o poder da análise de atividades que tanto contribui para que consigamos engajar nosso público nas atividades significativas para eles, isso faz a diferença em nossa atuação e importância dentro de instituições como APAEs, devemos sempre fortalecer e defender o nosso espaço nessas instituições!
Gracyella Pires da Silva Borges
Terapeuta Ocupacional na APAE de Formiga/MG (5 anos) e APAE de Pains/MG (1 ano). Atuou como Terapeuta Ocupacional na APAE de Arcos/MG, durante 4 anos. Além das APAEs, atua como Terapeuta Ocupacional na Clínica Saúde e Cia de Formiga/MG, realiza atendimento domiciliar nas cidades de Formiga e Arcos/MG. Criou e desenvolve atualmente o projeto: Núcleo Integrado de Saúde e Educação – Consultoria (NISE- Consultoria- página no facebook). É especialista em Tecnologia Assistiva e Neuropsicologia do Desenvolvimento. Possui certificação internacional em Integração Sensorial; Equoterapeuta; Terapeuta Comunitária e Massoterapeuta.